Pais e mães costumam ficar bastante atentos à aquisição e à evolução da fala de suas crianças. Se falam cedo, é motivo de orgulho; mas, se forem comparadas às crianças de sua convivência e parecerem estar atrasadas neste processo, a preocupação logo se manifesta.
As sugestões a seguir foram elaboradas considerando aquelas crianças pequenas – entre dois e meio, três anos de idade – que os pais julgam estarem com a sua aquisição de linguagem diferente da esperada.
Primeira dica: nivele sua altura com a altura da criança no momento de conversar com ela.
Se você está de pé, agache, ajoelhe ou sente-se. Caso contrário, acomode a criança numa cadeira, em posição que a permita visualizar o rosto de quem lhe fala e, assim, além de ouvir, possa também observar as expressões faciais e os movimentos articulatórios de seu interlocutor.
Segunda dica: modere a velocidade de sua fala.
Não fale muito rápido. Pessoas que falam rápido demais podem pecar na precisão articulatória. Isto não significa que você tenha que falar muito lentamente, de um modo artificial, mas se você puder lentificar o ritmo de sua fala, dando tempo de realizar completamente todos os movimentos articulatórios, diferenciando bem os sons, melhor assim.
Terceira dica: procure ter uma fala prosodicamente rica.
A prosódia relaciona-se aos aspectos sonoros das palavras, à maneira como falamos. Isto envolve a variação de duração, ritmo e entonação, o que determina, junto com o significado das palavras, com o arranjo sintático dos enunciados e com outros elementos discursivos e contextuais, o sentido do que dizemos. A prosódia dá um colorido melódico ao texto falado, conferindo emoção àquilo que comunicamos. Então, caprichando na dinâmica prosódica, ou seja, fazendo pausas, variando a voz do grave ao agudo, alongando alguns sons, conseguimos dar ênfase à expressão verbal, alcançando de modo mais eficaz a atenção do interlocutor. Imagine como isto é importante quando contamos histórias para uma criança!
Quarta dica: evite os diminutivos.
Os diminutivos em excesso deixam as palavras muito semelhantes umas às outras, complicando a diferenciação entre os vocábulos e retardando o repertório lexical infantil. Então, melhor dizer: “Que bonita sua meia! Combina com o sapato que a vovó lhe deu!” do que: “Que bonitinha essa meinha, combina com o sapatinho que a vovozinha lhe deu”. Não raro, além desse uso exagerado, alguns adultos tendem a agudizar a voz, imitando a voz de uma criança, atitude que, somada ao falar no diminutivo, sugere que o destinatário tem menor idade do que de fato, tem.
Quinta dica: utilize os pronomes pessoais.
Muitas pessoas costumam falar com as crianças assim: “O João está com sede? A mamãe pega água para o João.” ou “Dá o livro do João para a mamãe!”. Então, sugiro que falem: “Você está com sede? Eu pego água para você.” e “Dá o seu livro pra mim!”.
Os pronomes pessoais, assim como os advérbios de lugar e os pronomes demonstrativos são elementos da língua que indicam o lugar ou o tempo da produção de um enunciado. São chamados de “dêiticos”. Também indicam os participantes da situação em que o enunciado é produzido.
Falando dos dêiticos, não posso deixar de citar o linguista francês Émile Benveniste, lido e relido nos meus anos como aluna, no Curso de Fonoaudiologia, e depois mencionado tantas vezes, na prática da docência, para meus alunos e alunas.
No capítulo 21 do livro Problemas de Linguística Geral I , capítulo intitulado “Da subjetividade na linguagem”, diz ele: “Eu não emprego eu a não ser dirigindo-me a alguém que será, na minha alocução, um tu. Essa condição de diálogo é que é constitutiva da pessoa, pois implica em reciprocidade – que eu me torne tu na alocução daquele que por sua vez se designa por eu.”
E ainda:
“Desses pronomes [pessoais] dependem, por sua vez, outras classes de pronomes, que participam do mesmo status. São os indicadores da deíxis, demonstrativos, advérbios, adjetivos, que organizam as relações espaciais e temporais em torno do ‘sujeito’ tomado como ponto de referência: ‘isto, aqui, agora’ e as suas numerosas correlações ‘isso, ontem, no ano passado, amanhã’, etc.. Têm em comum o traço de se definirem somente em relação à instância de discurso na qual são produzidos, isto é, sob a dependência do eu que aí se enuncia”.
Usando os pronomes pessoais, portanto, ao falar com a criança, damos a ela a oportunidade de ter, assim, um lugar subjetivo determinado, que é só dela. Devo destacar que os pronomes pessoais são aprendidos na práxis, ou seja, durante o uso da própria fala, durante a interação dialógica. Para a criança usar o “eu” e o “você” – bem como os outros elementos dêiticos – dependerá da percepção do seu lugar enquanto falante no aqui, no agora, no seu espaço. Então, vamos dar esta chance para as nossas crianças, usando os pronomes e tratando-as por você quando estivermos conversando com elas, bem como usando os demais elementos linguísticos condizentes com os participantes do diálogo.
Sexta dica: evite agir sem falar.
Por exemplo: a criança aponta um objeto e o pai ou a mãe vão lá e dão o objeto para a criança. Ninguém fala nada. Recomendo que o adulto fale para a criança: “Você quer a chave? Olha, está aqui a chave!”. Dessa maneira, o adulto demonstra que compreendeu, através do gesto comunicativo da criança, o que ela estava pedindo. Não só compreendeu, como valorizou sua intenção comunicativa, ressignificando seu gesto com palavras e dando o objeto que a criança pedia. É claro que, com o passar do tempo, com o amadurecimento da criança e diante da observação de que ela já consegue emitir sons e palavras, poderemos sugerir: “Então fala para mim, eu quero ouvir você falando o que você quer!” e a criança pode fazer algumas tentativas. Ou poderemos dizer: “É a chave ou é a bola?”, supondo que a chave e a bola estejam numa posição próxima. Se damos alternativas, usando a conjunção “ou”, mobilizamos a criança a verbalizar uma delas, complementando o gesto com alguma emissão verbal.
Sétima dica: se a criança inventar palavras, por mais engraçadinho que seja, não imite a criança, ou seja, não adote o vocabulário infantil na sua fala do dia a dia.
Vamos supor que a criança chame a chave de “tái”. E a cadeira de “tóti”. Então, a esposa pergunta para o marido, em casa: “Cadê minha tái?” e ele lhe responde: “A tái tá em cima da tóti”. Se adotamos o vocabulário infantil, incentivamos a criança a permanecer com seu repertório particular, tendo dificuldades em se fazer entender quando está na companhia de pessoas que não fazem parte do seu círculo familiar.
É imprescindível que as leis da língua sejam respeitadas. Não é assim com as regras sociais e as leis de trânsito? À medida que a criança cresce, mais se submeterá às normas, reguladoras de nosso comportamento. A linguagem também tem regras. Respeitando-as, ou seja, falando com exatidão, damos exemplo e servimos de modelo aos nossos filhos e filhas.
Oitava dica: quando a criança falar de modo diferente do padrão reconhecido como correto, devolva a ela, verbalmente, a fala convencional.
É compreensível que, dentro do processo de aquisição linguística, a verbalização da criança seja distorcida, mal articulada ou simplificada. Porém, sempre que o adulto tiver oportunidade, deve retomar a fala da criança, repetindo o que ela disse de forma organizada, seguindo o padrão da sua comunidade linguística. Não é necessário, num primeiro momento, solicitar que a criança repita (a menos que, de fato, ela já consiga produzir aqueles sons). Então, se a criança diz, por exemplo: “Tái taiu…”, sugiro que você retome sua fala e lhe diga: “A chave caiu… Vamos pegar a chave”.
As sugestões que foram dadas, aqui, parecem bastante simples e são, de fato. O que pode não ser simples é modificar comportamentos já sedimentados no cotidiano familiar. Entretanto, seus filhos estão crescendo e as mudanças são inevitáveis. Cabe aos adultos, portanto, a constante avaliação da situação de suas crianças, percebendo seu desenvolvimento e a necessidade de, como responsáveis por elas, terem flexibilidade para se ajustar a novas situações.