E OS ELETRÔNICOS?

O título deste artigo reproduz uma pergunta frequente relacionada ao uso de aparelhos eletrônicos pelas crianças em processo de aquisição de linguagem. Será que ajuda ou atrapalha?

Encontramos facilmente matérias e artigos publicados sobre o tema e, somando conhecimento e bom senso, compreendemos que a exposição prolongada às telas dos aparelhos eletrônicos, pela criança pequena, deve ser limitada a um tempo curto.

A Organização Mundial de Saúde alerta que bebês com menos de doze meses de vida não devem passar nem um minuto na frente de dispositivos eletrônicos e a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que este tempo não exceda uma hora por dia para crianças de dois a cinco anos de idade. Além disso, a sugestão é que o período de exposição não deva ser ininterrupto, mas intercalado com outras atividades. Estas são recomendações para evitar e prevenir desde comprometimentos oftalmológicos na criança até problemas relacionados ao sedentarismo e à falta de interação social.
Achei bem explicativo e, portanto, recomendo, um artigo publicado em 2019 na REDIN (Revista Educacional Interdisciplinar), intitulado “Autismo virtual: as implicações do uso excessivo de smartphones e tablets por crianças e jovens” (http://seer.faccat.br/index.php/redin…). Neste artigo encontramos informações sobre as consequências do excessivo uso de dispositivos eletrônicos e também indicações de vídeos, artigos e livros sobre o assunto.

Mas não dá para evitar... O que faço?

Convivemos intensamente com os eletrônicos e, mediante a pandemia do coronavírus, ainda mais nos valemos deste recurso. Devemos ter em mente, entretanto, que esta tecnologia deve ser usada, com os pequenos, como mais uma opção de atividade e não como a única opção e que precisa ser uma atividade compartilhada.
Na primeira infância é imprescindível a interação social para a aquisição e o aprimoramento linguístico. Se é assim, programas de TV, filmes, vídeos, animações, atividades de aplicativos, jogos eletrônicos – que devem ser escolhidos com critério – precisam ser compartilhados entre a criança e seu acompanhante, de modo a serem considerados como estratégias que favoreçam a interação social e dialógica, já que a interação é condição para o desenrolar da aquisição linguística.
Então, se o seu filho gosta de assistir um determinado desenho, assista com ele, pelo menos algumas vezes, para você conhecer do que se trata, para poderem conversar sobre o conteúdo, durante ou depois do programa, ou para poderem brincar de interpretar os personagens, em outro momento.

E os vídeos do Youtube?

Existem vídeos com músicas e imagens que são excelentes e que, inclusive, ajudam a criança na aquisição de linguagem. Mas, se as crianças ficam passivas diante da tela, estes programas não ajudarão tanto quanto se tivessem alguém para cantar e dançar junto com elas.
Quando indico vídeos aos pais, com músicas e imagens, minha sugestão sempre inclui a presença de um adulto que conviva com a criança durante a atividade.
Encontramos boas criações, algumas, inclusive, com objetivos bem delimitados, como auxiliar crianças a emitirem palavras e sons específicos. A qualidade da produção favorece o engajamento na atividade, sendo um momento agradável para a criança e para o seu acompanhante.
Se a atração é com música e canto, por exemplo, as cantigas, uma vez aprendidas, podem ser cantadas em outros momentos, sem estar com equipamento nenhum ligado. O adulto, cantando com a criança, pode dar a “deixa” para que a criança complete a letra da música, promovendo, assim, a emergência de novas palavras.
Vou dar um exemplo. O adulto canta: “O sapo não lava o…” e a criança completa: “!”. Em outra ocasião, considerando que a criança já fala um pedacinho da frase, o adulto cantará: “O sapo…” e a criança: “não lava o pé!“.
Assim, inspirada pelo que viu e ouviu, a criança sente-se motivada. A situação compartilhada, repetindo-se várias vezes, possibilita que a criança, aos poucos, dê conta da letra toda e transfira o aprendizado das novas palavras para a sua fala cotidiana. É um exemplo, esse, de uma boa estratégia e de um bom uso do recurso que teve seu início com apoio de um eletrônico.

A TV fica ligada direto...

Não deixe a TV (ou outro equipamento reprodutor de som e imagem) ligada como fundo, enquanto a criança brinca ou realiza outra atividade. Assim, a atenção da criança vai estar na atividade principal, sem o ruído ou a imagem emitidos pelo aparelho, agindo como elementos distrativos. O aparelho deve ser acionado apenas quando for o alvo da atenção da criança.
Ainda que, para alguns pais e mães, ter a criança ligada num tablet possa lhes dar uma folga, devemos pensar que, uma vez que decidimos ter nossos filhos, temos a responsabilidade de acolhê-los da melhor forma.
Existem tantas outras atividades das quais a criança pode se ocupar… Manusear livros, ouvir histórias, tocar instrumentos musicais, cantar, realizar atividades manuais (como desenho, modelagem, colagem), praticar atividades esportivas e, claro, envolver-se em brincadeiras, as quais a criança pode desfrutar mesmo sozinha, depois que a ensinamos. Os pais podem ter seu tempo enquanto os filhos brincam, sabendo que podem ser chamados, de quando em quando.

Concluindo...

Podemos, portanto, ter os aparelhos eletrônicos como mais um recurso, mais uma estratégia, e não como substituto do contato interpessoal e do diálogo, embora não possamos esquecer que, atualmente – e, acredito, para sempre – estes recursos também favoreçam a interação, como quando nos comunicamos uns com os outros pela Internet. Porém, no caso do encontro online, temos mais possibilidade de simetria entre cada polo. É diferente de um vídeo onde, de um lado, há uma pessoa que só é ouvinte.
Enfim, os eletrônicos podem ajudar, sim, no desenvolvimento de linguagem da criança, se soubermos utilizá-los a nosso favor (e a favor de nossos filhos) e podem atrapalhar se não tivermos critério para usarmos este recurso, condenando seu pequeno usuário à fria, solitária e prolongada relação com uma máquina.

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