BRINCAR COM A CRIANÇA É IMPORTANTE PARA SUA AQUISIÇÃO DE LINGUAGEM. MAS… POR ONDE COMEÇAR?

O processo de aquisição de linguagem implica no sujeito adquirir e aprimorar, gradativamente, a capacidade de comportar-se tanto como ouvinte quanto como aquele que se expressa, entendendo que a expressão pode acontecer por gestos, olhares, sinais (como na Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS), PECS (sigla de Picture Exchange Communication System, cuja tradução é Sistema de Comunicação por Troca de Figuras), mímicas faciais e emissões vocais predominantemente prosódicas, entre outras possibilidades. A comunicação não depende, necessariamente, de uso de palavras faladas de forma convencional.

Pais e mães que esperam que a aquisição de linguagem de seus filhos aconteça satisfatoriamente precisam ser informados e sensibilizados da necessidade de, diariamente, brincarem com as crianças.

Embora possa parecer uma atividade fácil de ser executada, já ouvi algumas vezes pais e mães me contarem que nem sempre acham essa tarefa tão fácil assim. E são várias as justificativas dadas por eles.

Uma delas é a escassez de tempo que parece ainda mais curto quanto menos adultos colaboradores vivem na casa, situação hoje muito comum: a de que só uma pessoa da família mora com seus dependentes. 

Afinal, além do trabalho que gera renda, há o trabalho doméstico e as necessidades de manter hábitos de higiene para si e para as crianças (como banho, corte das unhas e dos cabelos, etc.); de manter períodos de sono e descanso suficientes; de dedicar-se ao acompanhamento de atividades de ensino para si próprio ou para seus dependentes; de manter os laços sociais, seja por contato telefônico, virtual ou presencial (este não indicado nestes tempos de pandemia); de permanecer atualizado, acompanhando noticiários ou postagens, por exemplo; de ter momentos de lazer pessoal, como ver filmes, escutar música ou fazer uma caminhada; entre outras necessidades não mencionadas aqui. 

Fazendo esta lista fico até admirada como podemos ter tempo para tudo!

Entretanto, há outro motivo para pais e mães não brincarem com suas crianças, motivo que gostaria de destacar, porque é pouco comentado. 

Há indivíduos que não têm lembranças de como era brincar quando pequenos. O ambiente familiar poderia não ser favorável, como em lares com adultos abusivos ou com uma situação de carência tão grande que as lembranças mais antigas estavam vinculadas, já, a experiências de trabalho. 

Também há os casos de pessoas que, quando crianças, sendo acompanhadas apenas, por exemplo, pela mãe doente, desde muito cedo assumiram a função de cuidadoras e não de cuidadas. Ainda há aqueles que relatam terem tido tantas dificuldades na vida que simplesmente se distanciaram muito das memórias da infância, mesmo que as tenham vivenciado, alimentando a ideia de que brincar é uma besteira, uma perda de tempo.

Para estas pessoas, brincar com os filhos pode ser uma tarefa desgastante, pois é como se não tivessem aprendido a fazer isso. Então, como fazer?

DERRUBANDO IDEIAS PRECONCEBIDAS

Primeiramente, é preciso estar disposto a rever crenças, como a de que brincar é uma bobagem. Há diversos estudos à luz de diferentes teorias que tratam da relação entre o brincar infantil e a aquisição de diferentes habilidades, comportamentos e capacidades inerentes ao ser humano, como a linguagem. Mas as crianças pequenas não aprenderão a brincar sem a interação com alguém. Elas dependem, para estarem totalmente envolvidas numa atividade, de um outro que interaja com elas, principalmente com estratégias que envolvam a brincadeira livre, ótima situação para o desenvolvimento da criatividade, da narratividade, do papel de ouvinte e da expressão comunicativa.

Chamo de brincadeira livre a situação na qual uma criança brinca com materiais diversos, de sua escolha, sem estar submetida a regras fixas ou sequências pré-determinadas. Dessa forma, diferencia-se de um jogo (pedagógico ou não) ou de atividades específicas de ensino convencional. A criança, na brincadeira livre, age de forma mais espontânea e em um ambiente menos controlado.

SAINDO DA ZONA DE CONFORTO

Em segundo lugar é imprescindível estar decidido a experimentar realizar uma atividade que não faz parte de seu repertório diário, o que pode lhe deixar inseguro ou até levar você a experimentar sentimentos novos em relação ao seu filho ou à sua filha ou em relação a si próprio. Se para alguns deparar-se com esta possibilidade pode ser uma experiência agradável, para outros pode ser até assustadora. Mas, sem dúvida, será uma experiência positiva, principalmente se você tiver suporte caso perceba que não consegue dar conta disso sozinho.

ORGANIZANDO A AGENDA

Seria recomendável que todos os dias as crianças pequenas tivessem a oportunidade de se engajarem numa brincadeira com um adulto, pelo menos durante trinta minutos. Se houver mais de um adulto na casa disposto a esta parceria, pode intercalar: cada dia a criança brinca com um deles. Entretanto, se você é sozinho, muito atarefado e tem dificuldade em fazer esta atividade com os pequenos, tente fazê-la pelo menos duas vezes por semana, para começar, e vá aumentando a frequência conforme sinta-se mais à vontade.

É essencial que o momento de brincar seja exclusivamente destinado a isto. Você deve, inclusive, evitar pensar em outras tarefas que terá que cumprir no dia. Aliás, desenvolver a capacidade de estarmos inteiramente envolvidos naquilo que fazemos no momento em que o fazemos deveria ser um de nossos grandes objetivos. Não brinque enquanto olha seu WhatsApp, enquanto fala no celular, enquanto cozinha, enquanto assiste um filme.

Organize sua agenda, sua rotina, mas isto não significa que seus dias terão que ser iguais, com horários fixos e rígidos. Uma sugestão: antes de dormir anote as prioridades do dia seguinte e o tempo que supõe despender para realizá-las. Acrescente, inclusive, tarefas como preparação do almoço ou banho. Coloque brincar com meu filho (ou com minha filha) como prioridade, sabendo que terá que dispor de trinta minutos para realizá-la. Depois, atribua um horário de início e término para cada atividade do dia. 

Claro, imprevistos acontecem, e também erros de cálculo; mas, mesmo assim, a organização na agenda ajuda muito!

ORGANIZANDO O ESPAÇO

Não é necessário ter um único lugar na casa ou fora de casa destinado à brincadeira, pois se pensarmos no universo de atividades incluído no brincar, compreenderemos que há muitos lugares possíveis. Todavia, minha intenção é referir-me ao dia a dia da criança em sua casa, com seu acompanhante, pensando na brincadeira a dois com o objetivo de proporcionar oportunidades para a criança adquirir e aprimorar sua linguagem.

Sendo assim, é interessante que um lugar da casa seja eleito como o lugar principal (não o único) para brincar. Pode ser o quarto da criança, uma sala de brincar (para os sortudos que podem ter este cômodo em casa) ou um cantinho da sala de estar. Neste lugar estarão guardados os brinquedos, seguindo um padrão na arrumação dos itens, de modo que possam ser sempre (ou quase sempre) encontrados quando procurados. Prateleiras ou caixas ajudarão na disposição dos materiais.

Se houver mais pessoas na casa seria indicado que este espaço pudesse ter privacidade, o que facilitará que os participantes da brincadeira fiquem imersos na atmosfera que criarão, ao brincar. Um simples biombo ou uma cortina poderá cumprir este papel, ao menos parcialmente.

PROVIDENCIANDO MATERIAIS

Sabemos que para brincar não é condição ter muitos brinquedos e jogos. Aliás, qualquer objeto pode ser transformado em brinquedo desde que a criatividade o eleja como uma boneca, um carrinho, um avião, uma casa… Não raramente acontece de uma criança ganhar um brinquedo, abrir a caixa, deixar de lado o brinquedo e adorar brincar com a caixa! Hoje encontramos facilmente na Internet ideias fantásticas de confecção de brinquedos e de jogos, bem como sugestão de atividades para fazermos em casa.

Gosto muito do baú grande de brinquedos! Num baú, a gente pode colocar bonecos que representem diversos personagens, como animais, bebês, super-heróis; roupinhas; carrinhos; potes de massinha; bolas; utensílios de cozinha, como pratos, talheres, panelinhas; móveis para casa de bonecos; pedras coloridas, enfim, vários materiais misturados. Além disso, poupa nosso tempo, pois não precisamos separar os brinquedos antes de guardá-los.

Caixas, papelão, papéis coloridos, pequenas tábuas de madeira, canetas, giz de cera, lápis de cor, recorte de figuras, tesoura, cola, fitas adesivas, figuras para pintar, pincéis, tinta guache, barbantes coloridos e muitos outros materiais podem ser úteis para confecção de elementos únicos, frutos da criatividade dos participantes. Podemos incluir na lista jogos de tabuleiro, quebra-cabeças, jogos pedagógicos, de encaixe e vamos ainda lembrar da grande variedade de livros infantis!

E, claro, temos os eletrônicos, mas prefiro deixar este tópico para outro post.

E… JÁ!

Pois bem: uma vez sabendo e conhecendo a importância do brincar no desenvolvimento da linguagem infantil e estando disposto a separar uma parte de seu tempo para entregar-se a este momento, é preciso começar, e consistentemente. Os pequeninos, de até dois, três anos, precisarão de sua presença, mas ao longo do tempo aprenderão a brincar sozinhos, o que também deve ser feito.

Tenho certeza que, se adotar esta prática, não se arrependerá! Verá que, por compartilharem momentos nos quais a comunicação está presente todo o tempo, a aquisição da linguagem da criança vai deslanchar e, além disso, você conhecerá melhor seu filho e a si mesmo, numa cumplicidade que poderá perdurar ao longo da vida de ambos.

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