Uma das dúvidas que as pessoas levantam em relação ao atendimento online é de como faço para conhecer as características linguísticas de uma criança, sem estar em relação presencial com ela. Explicando o funcionamento da consultoria, esclarecerei esta questão.
Quando alguém me procura como profissional, a primeira coisa que faço é o envio de informações sobre o funcionamento da consultoria, o termo de compromisso e uma ficha para preenchimento de dados de identificação da criança.
Em seguida, é realizado um primeiro contato online para a entrevista com o responsável ou os responsáveis. Neste momento, complemento informações e oriento como devem fazer e me enviar filmagens.
As imagens da criança interagindo com seus familiares, em casa, são dados valiosos, pois são feitas em lugares onde a criança se sente absolutamente à vontade e com acompanhantes muito conhecidos: geralmente o pai, a mãe, a irmã ou o irmão.
De posse do material, faço uma descrição de todo seu conteúdo, ou seja, do ambiente no qual a criança e seu acompanhante se encontram; da fala de cada um dos interlocutores, realizada por transcrições literais; das ações, dos gestos e das expressões faciais de cada participante; e da duração dos intervalos de silêncio.
É uma análise minuciosa e demorada. Cada dez ou quinze minutos de vídeo podem equivaler a uma hora de trabalho, pois são necessárias visualizações repetidas para a certificação do dado. Nesta prática se torna observável uma série de ocorrências que não se dão a ver quando estamos imersos na presencialidade dos acontecimentos.
É claro que, ao visualizar o dado, a garantia de poder desvendá-lo não se dá apenas pelo fato de ter uma gravação e um registro escrito, mas de usar os óculos da experiência para, de fato, enxergar a bagagem que o dado carrega.
Colocarei aqui, a título de exemplo, dados simulados da descrição de trecho de aproximadamente dois minutos de um vídeo que, supostamente, teria sido enviado para mim. Imaginemos que a queixa principal da mãe é: “Meu filho não fala quase nada e fala tudo errado”, registrada no questionário que lhe foi enviado.
Descrição do Vídeo
Data da gravação: 26/08/2020
Nome fictício da mãe: Maria
Nome fictício da criança: Fábio
Idade da criança: 3 anos, 10 meses e 10 dias
Maria e Fábio estão na cozinha para fazer o lanche da tarde. Estão sentados diante de um balcão: o filho, em cadeira adaptada para crianças; a mãe, em uma cadeira, ao seu lado. Sobre o balcão encontram-se: um copo plástico com tampa e canudo, com leite em seu interior; um prato plástico com dois biscoitos e um pedaço de pão com algum tipo de pasta sobre ele (parece requeijão); um carrinho; um ursinho de pelúcia; um guardanapo de pano.
Cronômetro em 0 minutos e 20 segundos no início e em 2 minutos e 3 segundos no final do trecho descrito.
Na coluna da esquerda, encontram-se os turnos de Maria. Na coluna da direita, os turnos de Fábio. As falas estão em negrito
| 1. Olha para Fábio: Vamos comer tudinho, né, Fabinho? Pega o pedaço de pão e aproxima-o da boca de Fábio. | 2. |
| 3. | 4. Afasta seu rosto, pega o carrinho sobre a mesa com uma das mãos e o movimenta diante de si, no ar, fazendo um som com uma entonação que lembra o acelerar de um carro: Mmmmm… |
| 5. Continua segurando o pedaço de pão: Mmmmm… (Com a entonação que se faz quando a comida é gostosa). O Fabinho não quer comer? Abre a boquinha, ó, pega aqui… Mmmmm… (Com a entonação que se faz quando a comida é gostosa). Aproxima novamente o pão da boca de Fábio. | 6. |
| 7. | 8. Continua brincando com o carro, sem olhar para a mãe. Vibra os lábios, imitando o som do motor. |
| 9. Continua segurando o pedaço de pão: Mmmmm… (Com a entonação que se faz quando a comida é gostosa). Abaixa-se para visualizar melhor o rosto de Fábio, buscando seu olhar. | 10. |
| 11. | 12. Olha para Maria, continua segurando o carrinho e morde um pedaço do pão que a mãe segura. Mastiga-o enquanto brinca e olha para o brinquedo. |
| 13. Olhando para Fábio: O Fá quer pegar o pãozinho? Coloca o pão no colo de Fábio. | 14. |
| 15. | 16. Segura o carrinho com uma das mãos e o pão com a outra. Não olha para a mãe. Brinca com o carrinho, sem morder novamente o pão, por 40 segundos. |
| 17. Observa Fábio, até que diz: Come, mamãe… Sorri, olhando para Fábio, buscando seu olhar. | 18. |
| 19. | 20. Olha para a mãe e sorri. Depois, aproxima o pão do brinquedo, como se oferecesse o pão para o carrinho comer. Inho, ó! Nham, nham, nham… Mmmmm… (Com a entonação que se faz quando a comida é gostosa). Ri bem alto. Olha para a mãe. |
| 21. Come, mamãe… Tá gostoso… Sorri, olhando para Fábio. Faz um carinho em suas costas. | 22. |
| 23. | 24. Olha para a mãe. Come mais um pedaço, ainda segurando o carrinho com uma das mãos. Olha para o balcão: Dá u ôto pu Fá. Olha para a mãe. |
| 25. Olha para Fábio: Que que o Fabinho quer? Fala pra mamãe. | 26. |
| 27. | 28. Olha para o balcão. Olha para a mãe. Ôto di… u ôto inho! Olha para o balcão. |
| 29. Quer o ursinho, neném? Pega o urso. Então dá o carrinho. Olha para Fábio, estendendo-lhe uma das mãos para que ele lhe entregue o carro. Não dá pra segurar tudo, né? | 30. |
| 31. | 32. Não! (Choroso, com a voz bem aguda). Chacoalha a cabeça sinalizando a negativa, olha para mãe, olha para o balcão, olha para a mãe. Estica a mão que segura o carrinho em direção ao balcão. U ôto! Ôto di comê! (Choroso, com a voz bem aguda). |
| 33. Ai, mamãe… Ri. Recoloca o urso no balcão. O outro de comer… O biscoitinho? Pega o biscoito. Então dá o pãozinho pra mamãe. Olha para Fábio e estende-lhe a mão, para que ele lhe entregue o pão. | 34. |
| 35. | 36. Olha para a mãe, lhe entrega o pão, pega o biscoito. Inho. Morde o biscoito, oferece o biscoito para o carrinho. Mmmmm… (Com a entonação que se faz quando a comida é gostosa). |
| 37. O biscoitinho… Mmmmm… (Repetindo a interjeição). | 38. |
| 39. | 40. Continua manuseando o brinquedo, olhando para o carrinho. Inho pá mamãe… Leva o biscoito à boca, come. |
| 41. Pra mamãe? Sorri, olhando para Fábio. | 42. |
| 43. | 44. Não! Pá Fá! Ri alto. |
| 45. Ri também. |
Análise dos dados
Este trecho, que corresponde a aproximadamente dois minutos de interação, nos fornece vários dados. Vejamos.
Nesta amostra, Fábio produziu os sons vocálicos : [a], [ɐ] (“mãe”), [e], [i], [o], [ɔ] (“ó”), [u] e os consonantais: [m], [n], [ŋ] (“nham”, “inho”), [d],[dƷ] (“di”), [t], [f], [p].
Expressou-se verbalmente, com palavras inteligíveis, como onomatopeias (“nham, nham, nham”), interjeições, palavras simplificadas (com omissão de fonemas, como em “ôto” para “outro”) e palavras dentro do padrão tido como correto pela comunidade linguística (como em “não” e “mamãe”).
Constrói frases, como no segmento 24, quando fala “Dá u ôto pu Fá.”, por exemplo, combinando palavras numa sequência estruturada sintaticamente. Entretanto, refere-se a si mesmo na terceira pessoa “Dá u ôto pu Fá.”, quando se esperaria que falasse “Dá o outro pra mim.”, não se valendo do uso do pronome pessoal oblíquo.
Trata-se de uma situação de interação, ou seja, há um compartilhamento de interesses, com criança e acompanhante reunidos sob um contexto do qual o diálogo faz parte. As falas, tanto da mãe quanto da criança, estão entrelaçadas numa rede de sentidos. Há troca de olhares e uma atenção mútua nas expressões e vocalizações de cada um. Fábio comunica-se solicitando o que quer, referindo-se a objetos do ambiente e respondendo à mãe quando esta lhe dirige a palavra.
A mãe é receptiva, carinhosa, atenta, observadora, e busca o olhar da criança, ajustando seu posicionamento corporal para favorecer a visualização, pelo seu filho, da face dela. Usa uma estratégia dialógica que costumo recomendar quando a criança fala com distorções, trocas ou omissões de fonemas, que é a repetição, com articulação correta, da fala da criança, lhe oferecendo um modelo padrão da língua. Temos o exemplo disso nas sequências 32 e 33, quando a criança diz: “U ôto! Ôto di comê!” E a mãe, no turno posterior, retoma esta fala do filho, porém, corretamente: “O outro de comer… O biscoitinho?”.
A criança parece bastante permeável às intervenções linguísticas da mãe, agregando-as na sua fala. Ela responde bem às solicitações que a mãe lhe faz. Seu olhar é direcionado e suas reações são adequadas ao contexto. Utiliza gestos e expressões faciais que dão margem à interpretação da mãe, como a sinalização do que quer com a mão ou com o olhar e também expressa-se com sorrisos, risadas, mímicas faciais e variação prosódica.
Um dos exemplos é que, logo no início do trecho, a criança faz um som nasal (turno 4) como uma onomatopeia – “Mmmmmm…” – como se imitasse o barulho de um carro acelerando, enquanto brinca com o carrinho. A mãe, no turno seguinte, faz, também, um longo som nasal “Mmmmm..”, mas como uma interjeição, com a intenção de expressar que o pão estava uma delícia. A partir daí, Fábio passa a usar, também, o “Mmmmm…” como interjeição, quando brinca de oferecer a comida para o brinquedo ou para expressar como achou gostoso o lanche.
Ainda comentando as consequências, nas construções linguísticas de Fábio, da maneira que Maria atua diante da fala de seu filho, observemos a sequência de 24 a 32. Neste trecho, diante da frustração de não se fazer entender, Fábio reestrutura sua própria fala quando a mãe solicita que ele diga o que quer ou quando o interpreta equivocadamente. Este comportamento verbal da criança é muito bom, pois demonstra sua capacidade de rearranjar e inserir elementos linguísticos os quais tem acesso para adequar seus enunciados. Sua primeira tentativa é “Dá u ôto pu Fá.” (24), sua segunda tentativa é “Ôto di… u ôto inho!” (28), sua terceira (quando a mãe, finalmente o compreende) é “U ôto! Ôto di comê!” (32). Percebe-se, nesta última frase, como Fábio já domina a generalização funcional de certos itens, pois se refere ao biscoito como “ôto di comê”, categoria que se diferencia do que é “de brincar”, por exemplo.
Preciso destacar, a partir das últimas observações, como é importante o papel do interlocutor. É interagindo dialogicamente com a criança, tanto lhe oferecendo significantes como estranhando suas falas ininteligíveis, que acontece a reestruturação da sua linguagem oral.
Será que encontramos, neste breve trecho transcrito, indicações de que a interação verbal possa melhorar?
Sem dúvida que sim.
Se observarmos as falas da mãe, veremos que ela utiliza muitos diminutivos: “tudinho”, “boquinha”, “pãozinho”, “ursinho”, “carrinho”, “biscoitinho”, “Fabinho”. Isto torna as palavras muito semelhantes, com um destaque para a terminação “inho”, ou “inha”, que serve para todas elas. Vemos, na sequência de 13 a 20, que Fábio utiliza “inho” para se referir ao pão e que, na sequência de 33 a 40, utiliza “inho” para se referir ao biscoito. Isto também gera uma dificuldade de interpretação por parte da mãe, como exemplificado na sequência de 25 a 32, quando a mãe pergunta o que a criança quer e ela responde, olhando para o balcão: “Ôto di… u ôto inho!”. Em cima do balcão havia o prato com biscoitos, o copo e o urso. A mãe supôs que o filho pedisse o brinquedo, pois ele também é nomeado com a mesma terminação: “ursinho”.
Outro comportamento verbal da mãe é o referir-se ao seu filho sempre na terceira pessoa. Não usa o “tu” ou o “você”, como no turno 25: “Que que o Fabinho quer?”. Refere-se a si mesma, também, na terceira pessoa, como em 33: “Então dá o pãozinho pra mamãe”. No turno 21, quando a mãe diz, oferecendo o pão ao filho: “Come, mamãe… Tá gostoso…”, nomeia o filho como “mamãe”.
Isto gera um efeito na linguagem oral de Fábio em relação à nomeação dos sujeitos, referindo-se a ele mesmo como “mamãe” ou estruturando a frase na terceira pessoa quando refere-se a si próprio. O interessante é que, quando a mãe estranha a fala do filho no turno 41 (“Pra mamãe?”), quando ele diz “Inho pá mamãe…” (em referência a ele mesmo, no turno 40), Fábio acha graça. Ele sabe o significado dos vocábulos “mamãe” e “Fá”, ainda que, quando organize sua fala, cometa a indistinção funcional da palavra. Fábio se corrige, como vemos no turno 44: “Não! Pá Fá!”, referindo-se a ele, novamente, na terceira pessoa. Ri do equívoco de ter se chamado de “mamãe”. Mas o faz, e aqui repito a posição essencial do interlocutor, pela interferência dialógica de Maria.
Outra observação é que a mãe refere-se ao filho como “neném” (turno 29), o que parece provocar nele uma potencialização de um comportamento mais “bebetizado”, uma vez que passa, após ser assim nomeado, a falar num tom mais agudizado e choroso.
A análise do ambiente também nos traz dados para posteriores orientações.
