BRINCADEIRA LIVRE

Chamo de “brincadeira livre” o brincar com materiais variados sem  direcionamento predeterminado ou submissão a regras fixas.

A criança, brincando livremente, pode agir de maneira mais espontânea, num ambiente menos controlado, mais natural.  O momento do brincar, assim, torna-se excelente ocasião para interagirmos dialogicamente com a criança. Dispondo de pelo menos trinta minutos, em lugar da casa escolhido para esta finalidade e com materiais de interesse da criança, esta prática pode ser diária.

Pensando nos adultos que têm dificuldades em se aventurar no mundo da brincadeira infantil, darei algumas sugestões para facilitar sua atuação e seu bem estar neste momento, de modo que consiga contribuir ao desenvolvimento de seu filho ou de sua filha e também ter satisfação em fazê-lo.

Promovendo a previsibilidade

Supondo que você organizou sua agenda, separando este tempo exclusivamente para brincar com seu filho ou sua filha, ele (ou ela) já pode saber, de antemão, deste plano. Saber disso antecipadamente pode gerar um efeito “calmante” sobre a necessidade de atenção da criança, principalmente se este programa tornar-se parte do cotidiano da família. 

Iniciando o momento da brincadeira

Quando chegar a hora, você a convidará a lhe acompanhar e então ambos irão ao “lugar de brincar”. Embora não precise ser sempre o mesmo, este lugar pode ser um cômodo ou um cantinho da casa eleito como principal e onde estarão os itens para este fim. 

Entretanto, não basta estar no mesmo ambiente para garantir que a interação entre ambos ocorra. Não haverá interação se, mesmo lado a lado, cada um fizer coisas diferentes. Por exemplo: a criança manuseia brinquedos e você lê mensagens no WhatsApp. É por isso que a brincadeira compartilhada é uma excelente atividade se quisermos interagir, de fato, com os pequenos.

Ao chegar no lugar de brincar, deixe que a criança escolha por onde começar e tenha paciência: observe e aguarde. Só tome a iniciativa de selecionar algo se perceber que a criança não consegue fazer isso sozinha ou se ela lhe pedir que você escolha. 

Descrevendo as ações da criança

Se a criança tomar a iniciativa, descreva, oralmente, as ações que ela fizer e lembre-se de ficar no mesmo plano da criança quando interage com ela, facilitando o posicionamento face a face.

Quando você falar, tente construir frases curtas e simples, porém completas; de preferência, com sujeito e predicado.  Evite reduzir sua fala a nomeação de objetos ou a verbos no infinitivo. Procure articular as palavras precisamente e com velocidade moderada. Use os pronomes, evitando dirigir-se a você mesmo ou à criança na terceira pessoa. 

Por exemplo: 

A criança se encaminha para a caixa de brinquedos. 

Você diz: “Você vai pegar alguma coisa…”

A criança abre a caixa. 

Você diz: “Você abriu a caixa!”

A criança pega um carrinho. 

Você diz: “Você pegou o carrinho.”

A criança caminha em sua direção, olha para você e lhe estende o brinquedo.

Você diz: “Você me deu o carrinho… Vamos brincar de corrida?”

Criando histórias com os brinquedos

Enquanto a criança atua, além de descrever o que ela faz, colabore na criação de um enredo de história baseado na observação da performance da criança. Mergulhe na fantasia e interprete personagens. Envolva-se! Procure incentivá-la a explorar os brinquedos por mais tempo, dando-lhe sugestões de uso para os itens selecionados, caso perceba que ela já esgotou seu próprio repertório.

Por exemplo:

A criança pega o bonequinho do gato.

Você diz: “Você pegou o gato…”

A criança pega o dinossauro.

Você diz: “Agora pegou o dinossauro…”

A criança derruba o gato com o dinossauro.

Você diz: “O dinossauro derrubou o gato! O gato está chorando: ‘Miaaaau! Miaaaaau!’”

A criança pega o dinossauro. O gato cai no chão. Depois a criança abandona o dinossauro e dirige o olhar para outro objeto da sala.

Você, então, tenta retomar a brincadeira que foi deixada de lado: “Ah… o gato caiu… Fez dodói”.

Você pode imitar o gato chorando, pegar o gato nas mãos, embalando-o. Pode pegar também o dinossauro e atuar da mesma forma. 

Se você agir assim, talvez ela se interesse, novamente, em brincar com o gato e com o dinossauro e a brincadeira pode se expandir, levando os bichinhos para o veterinário, por exemplo. Se ela não se interessar e insistir no uso de outro item, você abandonará aqueles outros e recomeçará uma nova história com o próximo escolhido pela criança. Entretanto, tente incentivá-la para que explore, ao máximo, cada brincadeira.

Descrevendo as próprias ações

Além de relatar as ações da criança, descreva as suas próprias. Anunciando o que você está fazendo ou vier a fazer, evitam-se sobressaltos diante de algum movimento inesperado. Se você se levantar e não disser aonde vai, ela poderá pensar que você vai sair, abandonando a atividade, e isto a tiraria do enlevo proporcionado pela brincadeira compartilhada.

Por exemplo:

Você está brincando com a criança e percebe que precisa limpar o seu próprio nariz. Então, dirá a ela: “Preciso limpar meu nariz. Vou levantar e pegar um lenço.” Levanta-se, pega o lenço, retorna, limpa o nariz. “Pronto. Já limpei meu nariz. Podemos continuar”.

Interpretando as tentativas da criança de se comunicar

As emissões da criança, bem como seus gestos, expressões faciais e olhares podem ter valor comunicativo e devem ser interpretados, na medida do possível. Pode ser que sua interpretação não seja exata. Mas, se não o for, a criança lhe dará pistas para que você tente de novo.

Por exemplo:

A criança olha para o carrinho, que não está ao seu alcance, e em seguida olha para você, fazendo algum som vocal (“Brum!”).

Você diz: “Você quer o carro?”

A criança chacoalha a cabeça para os lados, sinalizando sua negativa. Depois, olha para a rampa, do outro lado da sala.

Você diz: “Quer que eu coloque o carro na rampa?”

A criança sorri e vai, saltitante, até o lugar onde está a rampa.

Abrindo espaço para a expressão da criança

Quando a criança ficar absorta, brincando em silêncio, você pode agir relatando o que ela está fazendo, como já escrevi anteriormente, mas também pode “dar um tempo” em suas intervenções verbais e observá-la. Ficando em silêncio, dará oportunidade para  a criança tomar a iniciativa de lhe chamar.

Então, embora a orientação seja de que você deva ir descrevendo as ações da criança, é preciso ter sensibilidade para dosar este procedimento. Se abusarmos dele, acabamos por expor a criança a um volume verbal tão grande que a cansamos e a tornamos indiferente às falas que lhe são dirigidas. Assim, alterne momentos de falar com períodos de silêncio e observação.

Equilibrando o volume verbal

Nas primeiras vezes que vocês forem brincar juntos e se a criança ainda fala muito pouco, você irá produzir um grande volume verbal, pois necessitará dar mais suporte a ela. Contudo, à medida que a criança vai falando mais, aumentando seu vocabulário e se expressando de maneira mais funcional, você poderá  falar menos, abrindo espaço para a criança se expressar. Comemore seus avanços, demonstrando sua satisfação, pois isto a motivará. 

Abrindo lacunas para a criança completar

Uma boa estratégia para estimular a criança à linguagem oral é propor que ela complete lacunas em sua fala.

Por exemplo: 

Na simulação de uma corrida de carrinhos, você pega um carrinho, a criança pega outro carrinho e então você diz: “Um dois três e… Já!”.

Tendo repetido este contexto algumas vezes, chegará o momento em que você dirá: “Um, dois, três e…” 

Você olha para a criança e então ela completa: “Já!”.

Dando o modelo verbal, sem corrigir

Não se atente em ficar corrigindo a fala da criança no momento da brincadeira livre, principalmente quando recém estiverem iniciando esta rotina. Isso interrompe o fluxo da brincadeira. Você não precisa, nesta situação, ensiná-la de uma maneira direcionada e artificial. Entretanto, procure sempre dar o modelo de fala correto para ela. 

Explorando as onomatopeias

Explore as onomatopeias, que são aquelas palavras da língua que representam os sons naturais, como o “brum brum” para o carro, o “pou!” para o barulho de uma batida, o “auau” para o cachorro, o “tictac” para o ruído do relógio, entre outras. Você pode fazer isto quando, na brincadeira, dá voz aos personagens.

Facilitando o contato visual

Se a criança estabelecer pouco contato visual, faça o seguinte: percebendo que ela se interessa por um brinquedo específico, pegue-o e o posicione bem ao lado de sua face (da sua face, não da face da criança) e fale o nome do item ou a onomatopeia a ele associado. Assim, quando ela olhar para o objeto, olhará também para seu rosto, sua expressão facial e sua boca.

Por exemplo: 

A criança brinca com um caminhão.

Você pega um cachorrinho e diz: “O cachorro também quer passear!”. Em seguida, posicionando o brinquedo ao lado de sua face, dá voz ao cachorro: “Au, au, au!”.

A criança olhará para o cachorro e, consequentemente, para seu rosto.

Respeitando a dinâmica do brincar

É comum acontecer de a criança fazer um “rodízio” entre algumas atividades. Assim, interessa-se pelo gato e pelo dinossauro, depois por canetas e papel, depois pelo caminhão. Em seguida volta para as canetas, depois para o gato e o dinossauro, e assim por diante. Tente, sempre, explorar ao máximo as brincadeiras. A tendência é de que, durante o período predeterminado para estarem juntos, esta troca constante diminua devido ao crescente aumento do tempo destinado a cada uma das situações lúdicas.

Não há problema, todavia, em repetir brinquedos e maneiras de brincar. As crianças sentem-se confortáveis e divertem-se com isso. Além do mais, mesmo que aconteça a repetição, nunca será exatamente igual. Sempre é renovada a possibilidade de aprender algo mais, de modificar elementos e de incrementar os enredos. Cada vez que a criança repete a brincadeira, fixa, elabora e amplia suas aquisições.

Encerrando o momento da brincadeira

Acabado o tempo definido para a duração da atividade, a criança será informada do seu término e outra ocupação será iniciada ou retomada, tanto por você quanto por ela. Estas atividades podem ser independentes, como quando você vai fazer o pedido do mercado e, por sua vez, a criança vai fazer um lanche. Pode ser, também, uma atividade conjunta, mas executada em outro local, como o banho da criança,  monitorado por você. 

Se, finda a duração da brincadeira, a criança não quiser interromper a atividade, você pode dizer a ela que o tempo de vocês, ali, acabou, naquele dia; que você irá dedicar-se a outra tarefa, mas que ela pode continuar brincando sozinha (ou com outra pessoa que estiver na casa). Dirá, ainda, que poderão repetir o que fizeram, no dia seguinte.

Com o passar dos dias e a reiteração da programação, ficará mais fácil, para você, a execução da atividade. A criança, nesse ínterim, fortalecerá os laços com seus parceiros do brincar, usufruindo dos benefícios que este momento lhe trará ao longo do tempo.

Aproveitem, portanto!

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